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Saramago e Caim: Humor Divino

Publicado a: 24-10-2009 | Por : ParaRir | Em : Diversos, Humor Negro, Idosos, Malucos, Minorias, Picantes, Religião, Sátiras e Opinião


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«Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de rugidos e mugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo. Dos escritos em que, ao longo dos tempos, vieram sendo consignados um pouco ao acaso os acontecimentos destas remotas épocas, quer de possível certificação canónica futura ou fruto de imaginações apócrifas e irremediavelmente heréticas, não se aclara a dúvida sobre que língua terá sido aquela, se o músculo flexível e húmido que se mexe e remexe na cavidade bucal e às vezes fora dela, ou a fala, também chamada idioma, de que o senhor lamentavelmente se havia esquecido e que ignoramos qual fosse, uma vez que dela não ficou o menor vestígio, nem ao menos um coração gravado na casca de uma árvore com uma legenda sentimental, qualquer coisa no género amo-te, eva. Como uma coisa, em princípio, não deveria ir sem a outra, é provável que um outro objectivo do violento empurrão dado pelo senhor às mudas línguas dos seus rebentos fosse pô-las em contacto com os mais profundos interiores do ser corporal, as chamadas incomodidades do ser, para que, no porvir, já com algum conhecimento de causa, pudessem falar da sua escura e labiríntica confusão a cuja janela, a boca, já começavam elas a assomar. Tudo pode ser. Evidentemente, por um escrúpulo de bom artífice que só lhe ficava bem, além de compensar com a devida humildade a anterior negligência, o senhor quis comprovar que o seu erro havia sido corrigido, e assim perguntou a adão, Tu, como te chamas, e o homem respondeu, Sou adão, teu primogénito, senhor. Depois, o criador virou-se para a mulher, E tu, como te chamas tu, Sou eva, senhor, a primeira dama, respondeu ela desnecessariamente, uma vez que não havia outra. Deu-se o senhor por satisfeito, despediu-se com um paternal Até logo, e foi à sua vida. Então, pela primeira vez, adão disse para eva, Vamos para a cama.»

É assim que começa Caim, o novo livro de José Saramago.  Naquilo que o autor considera como um simples recontar de uma história muito antiga (ou não se chamasse Velho Testamento ^_^), sob linguagem moderna, muita sátira e ironia à mistura … e pouca pontuação (como habitual!) Saramago acaba por nos tentar mostrar em Caim uma leitura literal da Biblia (como ela foi lida durante muitos séculos, diga-se de passagem) e como nesta se revelam muitos defeitos das suas principais personagens. Deus é uma delas e lendo a Bíb… ermm, digo, Caim, vai-se notando uma sucessão de episódios – muitos deles rocambolescos e de um humor notável – em que Deus não é de todo imparcial. Quase dá vontade de dizer que Ele é ruim como as cobras! Caim, claro, é uma das suas vítimas – deu cabo do irmão, lembram-se? – mas também o delator de uma série de caprichos de Deus que, se este fosse actor de telenovela, fariam qualquer velhota gritar para a televisão – não te cases com ele filha, que esse é má rês!

No que toca a religião, o humor pode ser uma coisa do demónio! Umberto Eco disse-o de uma forma bem explícita (e magistral) no seu eterno romance O Nome da Rosa. E aqui se prova novamente esse facto. O lançar deste livro por José Saramago levantou uma incrível polémica, tal como havia acontecido em O Evangelho segundo Jesus Cristo. A mais ínfima sugestão de que alguns pressupostos da religião podem ser ter o seu quê de ridículo é extremamente ofensivo (e reparem que aqui Saramago consegue ir contra os fundamentos logo de 3 – Católicos, Judeus e Islâmicos) e noutros tempos já levou à chamada “morte do artista”!

Agora, pelo menos, já se pode publicar humor sobre religião. Piada com graça ou blasfémia sem perdão, isso vai depender do leitor. Mas já se pode publicar! E isso, só por si, é um sinal positivo dos tempos, que o Para Rir aplaude!

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Comentários (1)

Aqui está mais uma pérola sobre a polémica do novo livro de Saramago.

Um debate recente entre Saramago e um padre da igreja católica! Saramago dá-lhe uma completa abada, na minha modesta opinião!

http://www.youtube.com/watch?v=C2nrjs02rIk

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